O enfrentamento ao racismo e o combate à intolerância religiosa voltam ao centro do debate político brasileiro com a publicação de um levantamento do Instituto de Defesa dos Direitos das Religiões Afro-Brasileiras (Idafro). A entidade analisou de forma detalhada o posicionamento e os planos de governo dos candidatos Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro para as próximas eleições.
Segundo o minidossiê do Idafro, existem divergências profundas nas propostas apresentadas. Enquanto Lula trata a discriminação racial como elemento central da desigualdade, sugerindo o fortalecimento de ações afirmativas, demarcação de terras e regularização quilombola, Flávio nega a existência do racismo em suas diretrizes oficiais e declarações públicas.
O estudo aponta que o plano de Flávio omite termos vitais como "cotas", "preto", "matriz africana" e "laico". Além disso, sua proposta de segurança focada em reconhecimento facial traz riscos de criminalização da população negra, devido ao alto índice de falhas tecnológicas apontado por pesquisas nacionais e internacionais.
Por outro lado, as diretrizes de Lula priorizam a redução de homicídios da juventude negra e a preservação do patrimônio cultural e imaterial das religiões de matriz africana. O relatório ressalta medidas recentes, como a criação da política nacional para povos de terreiro em 2024, para assegurar a proteção de templos contra invasões e depredações.
Apesar desses avanços, o documento alerta para o uso eleitoral estigmatizante de tradições religiosas. Casos de desinformação com inteligência artificial e ataques de adversários, como os do deputado Alfredo Gaspar contra rituais de terreiro, mostram que os povos tradicionais continuam sendo vulnerabilizados no processo político.
Direitos humanos e cenário religioso no Brasil
A campanha do senador Flávio Bolsonaro foi procurada para se posicionar sobre as conclusões do levantamento e o espaço permanece aberto para manifestações. A discussão ganha urgência em um país composto por maioria católica (57%) e evangélica (27%), onde praticantes de umbanda e candomblé somam 1% da população protegida por um Estado laico.
Demonstrando a gravidade do cenário, os dados do Disque Direitos Humanos (Disque 100), órgão vinculado ao Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, registraram 2.774 denúncias de discriminação e agressões motivadas por fé entre janeiro de 2025 e janeiro de 2026, reafirmando a urgência de políticas públicas efetivas.

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