Aguarde, carregando...

Segunda-feira, 07 de Setembro 2026
Mesmo com queda nos assassinatos, conflitos no campo crescem no Brasil, aponta Comissão Pastoral da Terra (CPT)
Direitos Humanos

Mesmo com queda nos assassinatos, conflitos no campo crescem no Brasil, aponta Comissão Pastoral da Terra (CPT)

Levantamento da CPT indica que mortes violentas recuaram de 27 para seis no primeiro semestre, mas total de disputas agrárias saltou de 798 para 841 ocorrências.

Espaço para a comunicação de erros nesta postagem
Máximo 600 caracteres.

No primeiro semestre de 2026, o Brasil registrou um aumento expressivo nos conflitos no campo, embora o número de assassinatos tenha apresentado uma redução significativa em comparação ao ano anterior. Os dados, divulgados nesta quarta-feira (2) pela Comissão Pastoral da Terra (CPT), revelam que a escalada das disputas decorre diretamente da crescente mercantilização e financeirização do território nacional.

De acordo com o balanço parcial, o total de mortes violentas no meio rural despencou de 27 ocorrências, registradas entre janeiro e junho de 2025, para seis casos no mesmo período de 2026. Em contrapartida, as ocorrências de disputas territoriais e por recursos subiram de 798 para 841.

O estado do Maranhão lidera o ranking nacional de violência agrária, concentrando 156 registros nos primeiros seis meses deste ano. Na sequência das regiões mais afetadas aparecem o Pará (90), a Bahia (85), Rondônia (63) e o Amazonas (63).

Publicidade

Leia Também:

Os indicadores do primeiro semestre servem como termômetro para identificar as principais tendências de violência rural em 2026. Essas estatísticas vão consolidar o relatório anual "Conflitos no Campo Brasil", previsto para publicação em 2027.

A metodologia de monitoramento da CPT baseia-se em relatórios de agentes pastorais distribuídos pelo país, além de dados da imprensa, comunicados de órgãos públicos, movimentos sociais e entidades parceiras.

Segundo Cecília Gomes, coordenadora nacional da CPT, a realidade do campo brasileiro continua marcada pela insegurança. Em entrevista à Agência Brasil, ela destacou que as comunidades rurais ainda precisam lutar constantemente para garantir sua permanência na terra.

Apesar do recuo nos homicídios, a CPT adverte que os massacres — episódios que resultam em múltiplas mortes simultâneas — continuam sendo uma característica alarmante e persistente da violência rural.

A entidade aponta que a pressão sobre os territórios tradicionais e camponeses tem se intensificado devido à especulação imobiliária agrícola, impulsionada por fundos de pensão e pelo interesse na exploração de minerais raros.

“Essa corrida global por recursos naturais e terras agricultáveis avança de forma agressiva sobre o território brasileiro, consolidando um processo de financeirização da terra”, alertou Cecília.

Conflitos por terra

A maioria esmagadora das ocorrências computadas este ano envolve disputas diretas por terra (711 casos). O restante divide-se entre conflitos pelo uso da água (100) e flagrantes de trabalho análogo à escravidão no meio rural (30).

Nas 711 disputas fundiárias, estão englobados atos de violência e ações de resistência em acampamentos e ocupações. Enquanto os episódios violentos subiram de 584 para 663, as ações de resistência caíram de 66 para 48, mantendo uma tendência de queda observada na última década.

O Maranhão concentra o maior volume dessas disputas (153), seguido por Bahia (76), Pará (68) e Rondônia (54). O Amazonas registrou a maior alta proporcional, com um salto de 140% nas ocorrências, que subiram de 37 para 52 casos.

A pulverização de defensivos agrícolas sobre comunidades despontou como a violência mais recorrente, saltando de 98 para 169 registros. Invasões de propriedades (de 96 para 109), desmatamento ilegal (de 67 para 107) e ameaças de despejo (de 63 para 70) também cresceram, impulsionados pela expansão da fronteira agrícola.

A coordenadora da CPT alertou para o perigo extremo do uso de agrotóxicos como ferramentas de coação física e psicológica contra as famílias camponesas.

“Trata-se de uma contaminação silenciosa que, embora não tire a vida da vítima de imediato, compromete a saúde e mata o trabalhador de forma gradual”, explicou.

Conflitos pela água

As disputas pelo acesso a recursos hídricos foram identificadas em 20 estados, apresentando um crescimento expressivo de 112% em relação ao ano anterior, ao passar de 47 para 100 registros oficiais.

O Pará lidera as estatísticas com 16 ocorrências, seguido de perto por Minas Gerais (11), Amazonas (10) e Mato Grosso (10).

No território paraense, o cenário de tensão é alimentado pela resistência de povos indígenas contra a concessão de rios à iniciativa privada e contra a invasão de garimpeiros, além do embate de ribeirinhos com grandes mineradoras.

A mobilização dos povos originários contra a concessão hidroviária resultou, em fevereiro de 2026, na anulação do Decreto nº 12.600/2025, que pretendia incluir trechos dos rios Madeira, Tapajós e Tocantins no programa de desestatização do governo federal.

O garimpo ilegal continua a causar graves impactos ambientais em rios de terras indígenas brasileiras, afetando a saúde das populações locais.

Trabalho escravo

As denúncias de exploração de mão de obra análoga à escravidão no campo registraram queda expressiva no primeiro semestre de 2026, recuando de 101 para 30 ocorrências.

O total de trabalhadores resgatados dessas condições também diminuiu, caindo de 842 para 355 pessoas. O recorde histórico recente ocorreu em 2023, quando 1.395 trabalhadores foram libertados no primeiro semestre.

O estado de São Paulo liderou o índice de resgates com 148 pessoas libertadas em cinco fiscalizações, sendo a maioria dos casos concentrada em lavouras de cultivo e corte de cana-de-açúcar.

Violência contra a pessoa

Dentre as seis mortes registradas até junho, destaca-se o assassinato de três posseiras no município de Lábrea, no Amazonas. O balanço também inclui dois indígenas mortos em Roraima e no Mato Grosso do Sul, além de um trabalhador sem-terra, com idades variando de 14 a 45 anos.

Paralelamente, os índices gerais de agressão física e ameaças aumentaram no país, com o número de ocorrências subindo de 418 para 588, e o total de vítimas saltando de 308 para 497.

A contaminação por rejeitos de mineração despontou como uma nova e alarmante forma de violência, somando 195 casos, uma categoria que não havia registrado ocorrências no mesmo período do ano anterior.

Todos esses casos de contaminação mineral ocorreram em Jacareacanga, no Pará, provocados pela atividade de garimpo ilegal de ouro na Bacia do Rio Tapajós, afetando diretamente a Terra Indígena Munduruku.

Outras formas de violência em destaque foram a exposição a agrotóxicos (que saltou de 10 para 132 casos), processos de criminalização de lideranças (de 46 para 51) e agressões físicas diretas (de 26 para 42).

As populações mais vulneráveis a essas violações continuam sendo as comunidades indígenas, trabalhadores sem-terra, posseiros, extrativistas de borracha e quilombolas.

Iniciativas de reforma agrária buscam garantir a segurança jurídica e a permanência de famílias quilombolas em suas terras tradicionais.

Manifestações

Embora as ações de protesto não entrem no cálculo direto de conflitos violentos, as manifestações públicas continuam sendo uma ferramenta essencial de resistência e denúncia para as comunidades rurais.

Nos primeiros seis meses de 2026, foram contabilizados 284 atos públicos, marchas, bloqueios de rodovias e ocupações de prédios estatais, superando as 253 mobilizações registradas no ano anterior.

As principais bandeiras de luta desses movimentos envolvem a demarcação de terras indígenas, a oposição ao uso de agrotóxicos, o combate à mineração predatória e a defesa de direitos trabalhistas no campo.

Mobilizações nacionais reúnem povos originários em grandes marchas para pressionar pela demarcação de seus territórios e proteção de seus direitos.

Cecília Gomes reforçou que o papel da CPT vai além do registro estatístico, atuando diretamente no fortalecimento da resistência comunitária contra o avanço do capital especulativo sobre a terra.

A organização também direciona seus esforços para a formulação de propostas de políticas públicas que garantam a segurança jurídica e a dignidade humana no meio rural brasileiro.

FONTE/CRÉDITOS: Com informações da Agência Brasil
FONTE/CRÉDITOS (IMAGEM DE CAPA): © Tânia Rêgo/Agência Brasil

Comentários

O autor do comentário é o único responsável pelo conteúdo publicado, inclusive nas esferas civil e penal. Este site não se responsabiliza pelas opiniões de terceiros. Ao comentar, você concorda com os Termos de Uso e Privacidade.

Não possui uma conta?

Você pode ler matérias exclusivas, anunciar classificados e muito mais!
Termos de Uso e Privacidade
Esse site utiliza cookies para melhorar sua experiência de navegação. Ao continuar o acesso, entendemos que você concorda com nossos Termos de Uso e Privacidade.
Para mais informações, ACESSE NOSSOS TERMOS CLICANDO AQUI
PROSSEGUIR