Um levantamento divulgado pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) revela que muitos responsáveis ainda enxergam a palmada como um método de disciplina, e não como uma forma de violência física. A pesquisa ouviu centenas de pessoas em áreas vulneráveis do país para entender o comportamento de pais e cuidadores na primeira infância.
Enquanto aguardava o transporte público em Brasília, a autônoma Andrea, de 32 anos, refletia sobre o desafio de lidar com as birras cotidianas sem recorrer a agressões físicas. Ela recorda os castigos sofridos na infância e garante que prefere o diálogo exaustivo a repetir o mesmo comportamento com o filho de 6 anos.
Olhar distorcido e naturalização
O diagnóstico buscou mapear os motivos que levam responsáveis a agredir crianças de até 6 anos. Os relatos coletados mostram uma clara distinção feita pelas próprias famílias entre o espancamento severo e o que chamam de tapa educativo.
“As famílias sequer consideram o tapa ou a chinelada como violência”, aponta a pesquisadora Luiza Teixeira, especialista de Proteção à Criança do Unicef no Brasil. Para ela, a sociedade naturaliza práticas agressivas devido a normas sociais enraizadas.
Desconhecimento da legislação
A Lei Menino Bernardo, conhecida popularmente como a lei da palmada, completou 12 anos de vigência integrada ao Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Contudo, o estudo demonstra que o texto legal permanece amplamente desconhecido ou mal interpretado nos lares brasileiros.
A pesquisa mapeou 214 participantes em regiões vulneráveis do Rio de Janeiro, Recife e Manaus. Os dados reforçam que a criação dos filhos ainda é tratada como um assunto estritamente privado, o que isola as famílias e silencia a comunidade ao redor.
Impactos no desenvolvimento infantil
Especialistas reforçam que punições físicas geram medo e submissão, mas não ensinam habilidades de autocontrole. Na primeira infância, o cérebro ainda está em plena maturação, o que limita a capacidade da criança de gerenciar frustrações sem o suporte empático de um adulto.

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