O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) tombou recentemente o quilombo urbano Ferreira Diniz, localizado no tradicional bairro da Glória, na zona sul do Rio de Janeiro. A medida histórica visa salvaguardar a trajetória de 14 famílias moradoras da área e proteger o território contra o avanço da especulação imobiliária na região.
O tombamento abrange integralmente o terreno situado na Rua Cândido Mendes, incluindo o quintal arborizado e os casarões históricos. Como parte das ações de salvaguarda, o Iphan planeja realizar um inventário completo das referências e manifestações culturais que resistem no local.
Além de sua importância histórica, o espaço funciona como um vibrante polo gastronômico. Às sextas-feiras, o quintal recebe visitantes para a tradicional Feijoada da Tia Cida, preparada por Maria Aparecida Ferreira, que se tornou símbolo de subsistência e visibilidade para a causa comunitária.
História e ancestralidade
As famílias Ferreira e Diniz ocupam o espaço desde a década de 1950. A história começou quando a matriarca Maria Isabel Ferreira, descendente de escravizados mineiros, casou-se com o zelador Antônio Dias Pessanha e passou a residir no casarão neoclássico, que outrora servia como hospedagem.
Em 2023, a Fundação Cultural Palmares certificou o grupo como remanescente de quilombo. Após a pandemia, a famosa feijoada da Tia Cida expandiu-se, gerando renda para as famílias locais e fortalecendo a mobilização comunitária em torno de suas tradições ancestrais.
Resistência contra a gentrificação
O Rio de Janeiro abriga 54 comunidades quilombolas, sendo 13 delas urbanas. O Ferreira Diniz destaca-se como um ponto de resistência cultural que atrai cariocas e turistas interessados em resgatar a memória negra, frequentemente apagada do desenvolvimento urbano tradicional.
A superintendente do Iphan no Rio, Patricia Corrêa, destaca que o tombamento possui funções jurídica, territorial, simbólica e reparatória. A medida impede demolições e consolida o espaço como um bem coletivo, combatendo a lógica de gentrificação do mercado imobiliário.
Luta pela regularização fundiária
O coração da comunidade é o casarão neoclássico do início do século 20, que hoje abriga as moradias subdivididas das famílias. No entanto, o imóvel necessita urgentemente de reformas estruturais para garantir melhores condições de habitabilidade aos moradores.
Segundo Érida Ferreira, presidenta da associação de moradores, o próximo passo crucial é obter o reconhecimento da posse coletiva da terra junto ao Incra. A regularização fundiária garantirá a segurança jurídica necessária para acessar políticas públicas de habitação e preservação.
A análise do modo de vida coletivo está sendo conduzida pela Universidade Federal Fluminense (UFF). A pesquisadora Ana Carmen Amorim Jara Casco ressalta que o quilombo ensina lições valiosas de cooperação e vivência comunitária, fundamentais para o futuro da sociedade.

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